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A CNV como ferramenta para vivenciar conflitos

Nossos conflitos não precisam ser confrontos, eles podem ser encontros. Esse foi um dos grandes aprendizados que tive no estudo da Comunicação Não-Violenta – CNV, uma metodologia que começou a ser desenvolvida em 1961, no contexto da transição do regime de segregação racial nos Estados Unidos. A partir dessa década, as leis de separação entre brancos e negros em ambientes públicos começaram a ser revogadas, aumentando a convivência e proximidades entre esses grupos. Nas escolas, crianças brancas e negras, que antes dificilmente conviviam, passaram a estudar juntas diariamente, o que foi gatilho de diversos conflitos relacionais entre elas. 

Foi nesse ambiente escolar que o psicólogo Marshall Rosenberg passou a atuar como orientador educacional. Ele percebeu que a dificuldade de comunicação era um dos grandes entraves na solução desses conflitos e que a chave para a compreensão do outro (e de nós mesmos) era o desenvolvimento da nossa capacidade empática natural, a partir de um olhar sem julgamento.  

Segundo Marshall, a empatia é a capacidade de ouvir profundamente e atentamente os sentimentos e necessidades (nossas e do outro). É nesse contexto de consciência de sentimentos e de necessidades que ele desenvolveu o conceito de comunicação não-violenta, e com isso criou técnicas para aprimorar a nossa comunicação e relacionamentos.

Neste ponto, acho importante explicar um pouco sobre a natureza relacional do ser humano, isto é, o ser humano é, por natureza, um ser relacional. Nós precisamos uns dos outros. A vida em sociedade se apresenta como uma ferramenta evolucional, uma vez que, a partir do relacionamento com o outro, eu consigo perceber o mundo de uma forma diferente. O outro nos traz contraste, outros pontos de vista, nos traz uma diversidade que sozinhos não teríamos acesso. Ao mesmo tempo, porém, esses pontos de vista diversos podem se tornar divergentes e é dessa divergência que emergem os conflitos relacionais. Ou seja, o conflito é uma consequência natural dos relacionamentos, é algo inerente à vida humana. 

Se pararmos para observar, vamos perceber que o conflito está em tudo na nossa vida: se você vai sair com amigos para jantar e precisa escolher um restaurante, isso é um conflito; se vai viajar em família e precisa definir um destino, também está vivenciando um conflito. Então, podemos concluir que o problema não é a existência de conflitos, mas sim quando transformamos conflito em confronto. 

O confronto nasce quando eu quero ter a razão, quando eu quero estar certo e, portanto, o outro precisa estar errado. Por outro lado, se eu abro mão de estar certo, e me permito ouvir os sentimentos e necessidades que emergem em mim e no outro em razão do conflito, eu consigo perceber que os nossos sentimentos e necessidades são similares, que somos muito mais parecidos do que imaginamos. Eu consigo me ver no outro e vejo o outro em mim. É aí que do conflito nasce o encontro.

Do conflito também nasce a consciência dos nossos sentimentos e necessidades. E é a partir dessa autoconsciência que Marshall desenvolveu uma técnica para nos comunicarmos de forma não-violenta, reaprendendo a ouvir (receber) e a falar (dar), a qual podemos dividir didaticamente em quatro etapas:

  1. Observar o que está acontecendo sem julgar/avaliar
  2. Identificar os sentimentos que emergem daquela situação
  3. Reconhecer quais necessidades que não estão sendo atendidas e estão ligadas aos sentimentos que surgem
  4. Fazer um pedido bem específico

Um exemplo muito elucidativo de CNV na prática é a seguinte fala de uma mãe para um filho: 

“Filho, quando eu vejo duas bolas de meias sujas debaixo da mesinha e mais três perto da TV, fico irritada, porque preciso de mais ordem no espaço que usamos em comum. Você poderia colocar suas meias no seu quarto ou na lavadora?”

Na observação, devemos trazer um fato da vida real, específico, buscando não fazer uma avaliação ou julgamento sobre daquela ação, como no exemplo, “Filho, quando eu vejo duas bolas de meias sujas debaixo da mesinha e mais três perto da TV” . Um modo violento dessa comunicação seria, por exemplo, ela falar “filho, quando eu vejo você deixando a casa toda bagunçada….” Isto é, essa frase generaliza a ação, rotulando-a como bagunça e não informa o fato específico que incomodou a mãe (duas bolas de meias sujas debaixo da mesinha e mais três perto da TV”). 

Em seguida, devemos expressar o sentimento que emergiu ao observar o fato, que, no exemplo, foi fico irritada”. Neste ponto, é importante nos auto responsabilizar pelo que sentimos, evitando usar frases como “você me deixou irritada”. Isso porque a ação do outro é apenas um gatilho para o que sentimos, já que o sentimento decorre, na realidade, de uma necessidade nossa que não foi atendida.

Na terceira etapa, portanto, é o momento de expressar essa necessidade que não foi atendida e está na raiz do sentimento indicado, no exemplo, porque preciso de mais ordem no espaço que usamos em comum”

Por fim, podemos fazer um pedido bem específico, em forma de ação positiva, que engrandeça a nossa vida, que no exemplo foi: ”Você poderia colocar suas meias no seu quarto ou na lavadora?”. Devemos evitar pedir ações omissivas como “deixe de fazer tal coisa”, e sim focar em um ação positiva específica que irá suprir a nossa necessidade que foi apontada na terceira etapa.

A Comunicação Não-Violenta nos convida a vivenciar uma forma totalmente inovadora de comunicação, em que precisamos abandonar nosso hábito de rotular os fatos como “certo x errado”, buscando observá-los de forma isenta, sem julgamento. Além disso, somos chamados a nos responsabilizar por aquilo que sentimos, deixando de colocar a culpa dos nossos sentimentos nos fatos externos, nas ações dos outros. Na CNV, passamos a compreender que os nossos sentimentos decorrem das nossas necessidades internas não atendidas, e não de fatos externos, os quais são somente gatilhos.

Se você gostou desse assunto e quer saber mais, te convido a assistir uma série de três aulas sobre CNV que fiz para o YouTube do Círculo. Nelas, o tema é aprofundado e explico com mais detalhes as 4 etapas da CNV, trazendo vários exemplos práticos para facilitar a integração desse conhecimento. Vamos juntos?

AULA DO CÍRCULO | O que é Comunicação Não-Violenta – CNV ? – aula 1/3 | Juliana Milet

AULA DO CÍRCULO | Como aplicar a Comunicação Não-Violenta – CNV – Aula 2/3 | Juliana Milet

AULA DO CÍRCULO | Como fazer um pedido usando CNV? – Aula 3/3 | Juliana Milet


SOBRE JULIANA MILET – Aluna do Círculo desde 2019, Juliana é Analista Judiciária no Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região, onde fez o Curso de Formação de Conciliadores e Mediadores Judiciais. É Bacharel em Direito pela UFPE, com pós-graduação em Direito Processual Civil. Atualmente, também cursa Licenciatura em Filosofia pela USF. 

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