Talentos Naturais e Espiritualidade

A religião é uma expressão da dimensão espiritual do ser humano, mas a espiritualidade humana está para além do paradigma Culto-Clero-Dia-Templo.

Há algum tempo venho trabalhando com a metodologia da Psicologia Pontos Fortes desenvolvida por Donald Clifton no Instituto Gallup, nos Estados Unidos, no qual me formei e licenciei, e aplicando a jornada de identificação, valorização e direcionamento de Talentos Naturais com mentorados de todo mundo. É um processo robusto embasado em mais de 40 anos de pesquisa e o que percebo, particularmente, é que a descoberta dos Talentos Naturais e a construção de uma identidade pautada em pontos fortes leva a pessoa a um estado de autoconsciência libertador, que a leva para um lugar de pertencimento na ordem da vida e do universo. E, neste lugar, qualquer pessoa consegue entrar no tão falado flow. Identidade – pertencimento – flow.

Esses dias, no entanto, me perguntaram como fica a espiritualidade no meio disso tudo. Ou até mesmo como falar na dimensão espiritual para quem é ateu ou agnóstico. Pois bem, vamos por partes.

Mesmo para uma pessoa mais pragmática, é possível perceber que tudo aquilo que coopera para o bem e para a unidade pode ser considerado “espiritualidade”. Então se eu tenho um foco e predisposição no bem – e aqui remeto à Platão: O bem como aquilo que nos une, que nos faz trabalhar juntos, estou contemplando e vivendo a dimensão espiritual na minha vida, ainda que, conscientemente eu não compreenda o intercâmbio dimensional.

De fato, a palavra espiritualidade não aparece no processo da jornada de Talentos Naturais. Pois esse é um termo que ainda traz arrepios para algumas pessoas, devido a fatos históricos e momentos em que houve abuso por parte das religiões. Mas estamos chegando num tempo em que a tecnologia está à disposição do autoconhecimento e temos condições de entender que a espiritualidade não é propriedade da religião.

A religião é uma expressão da dimensão espiritual do ser humano, mas a espiritualidade humana está para além do paradigma Culto-Clero-Dia-Templo. O melhor Culto é a expressão dos nossos talentos no seu máximo desempenho a serviço do outro; o Clero somos nós mesmos os sacerdotes de nossas vidas; o Dia, todo dia é dia de fazer o bem e o Templo somos nós, nosso corpo, nossas forças existenciais que fluem na direção da realização.

Quando levamos isso para a visão do mundo corporativo, tem muito significado, porque hoje o engajamento do colaborador é um dos maiores problemas nas empresas. As pessoas não têm autoconsciência do significado do próprio trabalho, estão alocadas num processo gigante, não entendem o mecanismo da organização, fazem o trabalho pelo dinheiro e não conseguem ver sua contribuição para o todo.

Basta observar nas tendências atuais o quanto a competitividade está perdendo espaço para a colaboratividade; e como o velho paradigma do “melhore suas falhas” está cedendo, graças a áreas de estudo como da Psicologia de Pontos Fortes. E então vemos um movimento interessante de profissionais trocando empregos em grandes players por startups, porque veem mais significado no que ali podem construir, juntos.

Lembro ainda de uma abordagem de Aristóteles, que define a perfeição como um estado de pleno equilíbrio, onde nada sobra e nada falta. Para Aristóteles, Deus é a plena felicidade porque, na sua perfeição, nEle nada sobra e nada falta. Se a gente partir desse pressuposto de perfeição, começamos a perceber que a felicidade integral – e aqui contemplando a dimensão espiritual – está muito mais ligada ao conceito de suficiência, do que ao conceito de abundância, sobra ou excesso.

Vivemos em nossa sociedade a cultura da hiperconsciência da falta. Não fomos ensinados a olhar para aquilo que de verdadeiramente bom pulsa em latência de realização dentro de nós. Sempre nos comparamos ao outro, vemos o que nos falta e fantasiamos como seria se pudéssemos ter o carro do outro, o talento do outro, o relacionamento do outro, a empresa do outro, o dinheiro do outro. Enquanto nos comparamos, perdemos de vista nossa real identidade, pertencimento e flow. A Psicologia de Pontos Fortes, na minha opinião, é uma ferramenta poderosa no caminho da autoconsciência e realização de nosso pleno potencial.

Sempre avanti! Che questo è lá cosa piú importante!

Juliano Pozati


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