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A espiritualidade na África subsaariana

Para compreender o contato com o divino entre os povos africanos é necessário abandonar os conceitos de religiosidade eurocêntricos.

Por Juliana Rissardi

No mundo Ocidental o entendimento da separação entre corpo e alma vem desde o filósofo Platão; cientificamente, desde Aristóteles, e, no mundo moderno, foi reforçado pelo francês René Descartes. Neste artigo vamos entender um pouco sobre como era a espiritualidade de povos da África subsaariana, que utilizavam o conceito de cosmogonia, pois, para eles, não existia a diferenciação corpo/alma. Numa leitura ocidental, a cosmogonia também pode ser representada pela espiritualidade. 

Segundo Balogun (1979), o mundo para o africano é uno. Vivos e mortos, plantas e animais, elementos materiais e etéreos fazem parte de um único conceito cosmogônico. Já em nossa tradição Ocidental, cristã e cartesiana há elementos separados, embora convivam no mesmo tempo e espaço. Com isso, por uma questão de clareza didática, podemos usar o termo “espiritualidade” para citarmos a relação homem/mundo e homem/Deus.

Tratamos aqui de um período pré e pós-colonial dos povos africanos subsaarianos. Antes, porém, para compreender melhor o texto é importante ter maior clareza de dois conceitos: 

  • Cosmogonia – é um agrupamento de crenças, com múltiplos saberes humanos e engloba a cosmologia, que se baseia na forma em como foi a criação do mundo, através dos mitos e lendas, que em algumas tradições são sagradas;
  • África subsaariana – é a parte do continente africano localizado ao sul do deserto do Saara, determinada por fronteiras forçadas quando esses territórios foram colonizados. O Norte do continente é diferente em questões econômicas e sociais, formado, em sua maioria, por islâmicos.

Em um recorte da região da costa africana, de Senegal a Moçambique, região de intenso tráfico de escravos após a invasão dos europeus, as questões cotidianas eram solucionadas através do espiritual, praticadas por curandeiros, adivinhos, médiuns e sacerdotes.

As culturas tradicionais africanas subsaarianas se estruturaram com base em uma educação oral, observadas nas cosmogonias, que, por sua vez, se materializaram na arte, simbolicamente portadora de uma ancestralidade que resistiu à tentativa de aniquilamento imposta pelos europeus. Nessa perspectiva é importante compreender que, tanto a cosmologia, quanto a cosmogonia, como formas de conhecimento, não são redutíveis a um único sentido, mas se compõem de narrativas, interpretações, visões de mundo dinâmicas e simbólicas (BOARO,2013). 

O contato com o divino

A espiritualidade africana, por muitos anos foi estereotipada, por ser carregada de misticismo, com conotações pejorativas de inferioridade. Para compreender o contato com o divino entre os povos africanos é necessário abandonar por completo os conceitos de religiosidade eurocêntricos. Sem o conhecimento do contexto histórico e sócio cultural de cada etnia – o que para os ocidentais pode significar de forma depreciativa, a feitiçaria – para esses, têm um significado extremamente amplo de significações simbólicas.

Dessa mesma forma se dá com o conceito das artes, com o olhar ocidental. De acordo com Roger Somé, os objetos produzidos em uma cultura não ocidental, não podem ser estudados de acordo com as concepções ocidentais. Cada povo possui formas, padrões e diferentes estilos e, sua arte, ao invés de reproduzir, é feita para interpretar sua essência.

Para os povos africanos o conhecimento era definido de acordo com a linhagem ancestral da qual ele fazia parte, fazendo naturalmente uma ligação entre o mundo material e o mundo espiritual. Os conselhos de como agir eram determinados por seus antepassados, através do contato com o mundo espiritual, seus deuses, espíritos, e pessoas importantes que já se foram. Os contatos eram feitos por meio de práticas ritualísticas e cerimoniais, diversificando-se em modos e costumes dependendo da sociedade.

Quando as coisas e tal sociedade não iam bem, as causas eram procuradas em atitudes ruins, feitas pelo próprio homem e, muitas vezes, o problema seria resolvido com oferendas aos espíritos ancestrais. Por exemplo, se uma mulher não conseguisse engravidar, os oráculos seriam consultados para que o “mundo de cima” pudesse revelar a melhor solução ou através de ritos de possessão para que se obtivesse conselhos. 

Assim também eram com as lideranças que só poderiam ser decididas com confirmações espirituais feitas aos mentores locais, chefes antepassados ou deuses, sempre a partir de sacerdotes, tornando-se intermediários de extrema importância entre os vivos e o além. Sendo assim, a vida espiritual seria o núcleo em algumas sociedades africanas; era a espiritualidade que garantia o bem-estar daqueles povos, auxiliava na organização das estruturas.

Sociedades Matriarcais

Antes da chegada dos europeus e, consequentemente, do cristianismo, a maioria das sociedades africanas eram matriarcais. Já, no cristianismo, a mulher é enquadrada na mitologia judaico-cristã como criada com a costela de Adão, explicação que as torna uma fração de algo e não alguém em si mesma. Bem diferente do poder das mulheres advindas da tradição Iorubá, “corpos libertos da culpa, do bem e do mal”. 

Como um exemplo, no Culto das Gèlèdes, os homens usam máscaras ritualísticas em reverência ao poder feminino, simbolizando os espíritos das mães ancestrais, e nessas sociedades as mulheres possuem o poder e o segredo, práticas que são feitas ainda nos dias atuais.

A relação com a natureza é outro aspecto importante para os povos africanos. Questões ambientais debatidas pelas nações ditas “civilizadas” já eram praticadas há muitos séculos nessas sociedades, com a conexão “una” do homem e a natureza, o total respeito e integração em um todo com os recursos naturais.

O mundo, para o africano tradicional, é um só, todas as formas de vida estão contidas no meio social, como as formas não vivas. Tudo faz parte de uma relação com o universo, os vivos e os mortos, a natureza e os homens, os mortos e a natureza, em um movimento circular, em que todos estão contidos dentro da vida, o material e o imaterial, e isso se reflete nas formas da arte africana (BOARO, 2013)

Os espíritos invocados e conselheiros eram ancestrais familiares que adquiriram conhecimentos para as áreas distintas, espíritos que habitavam a natureza, etc, e, por não serem limitados pela matéria, eram sempre recorridos para a resolução dos problemas. Apesar de todos os membros terem a possibilidade de se comunicar através de instrumentos ou sonhos, os contatos mais importantes se dariam através dos sacerdotes como intermediários.

A África, no recorte acima mencionado, antes da colonização, não correspondia a nenhuma teoria filosófica greco-judaico cristã, e sim, era envolvida com maravilhosas particularidades que ainda hoje se dá entre alguns povos, mesmo aqueles que estão sob maior influência da chegada dos europeus. Apesar de toda forma de religiosidade tida como correta através de outras perspectivas, a África e sua singularidade resiste!

Por Juliana Rissardi

Obs: o conteúdo deste artigo integra um trabalho de pesquisa realizado em ambiente acadêmico,  por ocasião de uma disciplina do curso de licenciatura em História.

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