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Conto: Às Escondidas

– O que estou fazendo aqui? Será que alguém vai me ver? A cidade é tão pequena…

Imersa em seus pensamentos, sobressaltada, Verônica encontrava-se na fila para entrar no centro espiritualista que estava quase abrindo. Precisava urgentemente daquele tratamento espiritual. Mas, ao mesmo tempo, temia que algum irmão da igreja que frequentava a visse naquele local, naquela situação.

Seu coração quase saltava pela boca. Não sabia se colocava os olhos na missa (olhando o máximo que podia ao seu redor) ou no padre (porta do centro fechada).

Verônica foi criada desde a infância em lar cristão conservador. Sua mãe era professora de matemática e seu pai professor de geografia – ambos do ensino fundamental. Tinha um irmão nove anos mais velho que havia passado no concurso para o colégio naval da Marinha e saiu de casa aos 15 anos. Desta forma, ela foi criada desde os seis anos praticamente sozinha, tendo em vista que ele vinha para casa eventualmente um final de semana ou outro e nos feriados e férias escolares. Depois, seguiu carreira militar e foi morar sozinho mesmo.

Havia frequentado a escolinha bíblica dominical, fez parte do coro infantil, aprendeu piano na igreja. Gostava muito de lá e de seus colegas. Acreditava nas histórias da Bíblia e Jesus, num primeiro momento foi seu herói; posteriormente passou a ser seu amigo e sua fonte de inspiração.

Pouco depois de completar 13 anos se interessou em iniciar o discipulado e tomou a decisão de ser batizada, tornando pública pela confissão de fé sua aceitação de Jesus como Seu único e suficiente Salvador. Foi, então, se entrosando em atividades da igreja e ingressou no grupo de adolescentes. Lá eles trocavam experiências e vivências pessoais, além de crises intensas. O grupo era para a faixa etária de 12 a 17 anos.  Mal sabia ela, que dali a dois anos, começariam alguns questionamentos, conhecimentos e aprendizados que viriam a mudar o rumo de sua tão convicta decisão.

Ahhh… Não cheguei a comentar um ponto bastante relevante…

O lar de Verônica era calmo e pacífico, mas, ao mesmo tempo, muito sem graça. Não havia tumultos, graças ao bom Deus, no entanto, também era de muita disciplina, estudo, planejamento, organização, trabalho. Seus pais, devido a profissão, apesar de lhes dedicar o máximo de amor, carinho e tempo possível, davam duro como qualquer professor na realidade brasileira, e a jovem moça ficava imersa em seus livros, estudos, rotina, cursos, pensamentos, celular, pesquisas na internet, vídeos etc.

Como sua família morava numa cidade pequena do interior, não tinha muito o que fazer. Eis que num dia chuvoso de domingo, véspera de feriado, ainda por cima, seus pais encontravam-se atolados até a alma de provas e trabalhos para corrigir, pois já estava no último bimestre do ano, e não podiam dar-lhe atenção. Não iriam nem à igreja como de costume. Cogitaram em pedir uma pizza à noite, mas Verônica – sabe como é adolescência, não? – preferiu ficar trancada em seu quarto. Estava se sentindo muito chateada. Nem isso queria…

Nesta noite, contudo, o inusitado aconteceu.

Enquanto estava em seu quarto assistindo desmotivada uma série qualquer para passar o tempo, sem opção, nada mais a fazer, eis que de repente recebe uma videochamada de um colega de sua sala com quem conversa aleatoriamente assuntos banais. Pega o celular com certa curiosidade pensando:

– O que será que Alex quer falar comigo? Que estranho!

Mas, afinal, abaixa o volume da televisão e atende com sua voz simpática e amistosa como de costume:

– Oi, Alex! Está tudo bem?

Alex, do outro lado da linha, não está nada bem. Mal consegue falar direito. Estava com pensamentos negativos, autodepreciativos, de desvalorização, baixa autoestima, sentindo-se muito culpado, um péssimo filho, uma má pessoa, que não merece continuar vivendo. Está trancado no banheiro, sozinho em casa, com uma gilete na mão. Já fez várias automutilações superficiais. Seus pais estão na igreja, orando a Deus para que ele se converta verdadeiramente, já que ‘isso’ não pode ser certo. É influência maligna do diabo, seguramente.

Quando, afinal, Alex consegue balbuciar alguma coisa e relatar por alto a situação à Verônica, ela fica tão chocada que resolve ir ao encontro dele. Às pressas, se veste, desliga tudo e diz aos pais, que encontram-se na sala trabalhando à base de café, que precisa visitar um colega que está muito mal. Eles pedem que tenha juízo e não demore, mas confiam na filha que é muito prudente e responsável.

Enquanto Verônica vai ao encontro de seu colega que mora a duas quadras de sua casa repassa pela sua cabeça a história que ele falou. Ela não conseguia engolir a atitude dos pais para com o colega.

– Como isso pode ser amor? Que mentalidade pequena…O que Jesus faria numa situação dessas? – Tudo bem, considerou. Jesus não tolera o pecado, mas ama o pecador. Mas amar é pecado, afinal?

Sua cabeça dava giros, suas crenças, seus valores, sua base religiosa, estava tudo sofrendo impactos profundos de forma abrupta naquele dia tão monótono e chuvoso de domingo quando um telefonema aparentemente ‘do nada’ a fez colocar em xeque suas premissas.

Afinal, Alex estava sendo bombardeado dentro de casa porque estava tendo sentimentos ambíguos por um colega mais velho da escola e, ao mesmo tempo, queria continuar participando das atividades da igreja. Gostava de congregar, de ir aos cultos, louvar a Deus, se sentia cristão verdadeiramente. Por que não podia ser ambos? Ou estar se sentindo confuso? Precisava sentir-se em pecado?

E, porque a família, ao invés de abraçá-lo em sua dúvida, crise de identidade ou escolha, rechaçou Alex fazendo-o sentir-se culpado, uma pessoa ‘do mal’, pecaminosa, que em algum momento deu brecha ao diabo? Na cabeça de Verônica nada disso fazia o menor sentido.

Quando chegou na casa de Alex, ele atendeu a porta com os olhos inchados de tanto chorar. Verônica deu um abraço tão apertado nele, que aí é que ele realmente desabou em prantos. Depois de se acalmar, sentaram-se. Alex não conseguira falar sobre isto até então com mais ninguém.

– Há quanto tempo esta situação está acontecendo, Alex? perguntou angustiada e comovida Verônica.

– Há uns quatro meses – respondeu Alex – Mas eu só contei para meus pais na esperança deles me ajudarem – porque estou me sentindo perdido – tem umas três semanas. De lá para cá minha vida se tornou um inferno na Terra. Eu parei de ir à igreja para não ser olhado, nem julgado, porque você não conhece minha mãe direito, aliás ninguém conhece, mas ela é como aqueles fariseus, por fora, de um jeito, aparenta uma coisa, mas vai morar com ela! Faz fofoca, intriga, difama, critica, julga, inverte… Mudou completamente comigo, Verônica. Você não tem noção. De filho querido e amado, agora não presto. Estou ‘endemoniado’.

– Nossa, Alex. Meu Deus! Que absurdo! Inacreditável. – disse Verônica, chocada.

– Eu não aguento mais – continuou Alex – Estou sem forças. Me sinto muito sozinho.

– Não está mais. Vamos arrumar algumas alternativas. Deus é Deus de amor. Estou com você. Que bom você ter lembrado de mim. Aliás, Ele mesmo já auxiliou você ao te fazer entrar em contato comigo – disse Verônica inspirada de uma forma tranquila e firme.

Alex escutou, deu um suspiro, refletiu por alguns minutos. Ficaram em silêncio. Pegou o celular e abriu a galeria de fotos. Mostrou o menino que ele está gostando. Rafael, do terceiro ano.

– Sei quem é – disse Verônica – Quer dizer, não conheço, mas já vi. Bonito ele! disse, dando uma risadinha para descontrair.

– Então, ele me passou esse vídeo aqui, nesse link. Mas não abri não. Fiquei com receio. Interessado até estou, mas já me chamam de tanta coisa. Ele disse que ia me ajudar se eu assistisse. Para eu não ficar pensando em bobagem. E que aqui na cidade tem um lugar muito bom que ele frequenta, que dá palestras e faz curas espirituais. Ele disse que podíamos marcar lá. Mas, sei lá né? Ando tão inseguro…

Verônica viu que se tratava de uma palestra espiritualista sobre amor e aceitação.

– Coloque aí. Vamos assistir juntos.

Após assistirem, os dois se entreolharam maravilhados e, ao mesmo tempo, se questionaram a respeito do que fariam dali em diante. Mas sentiram-se tão aliviados com outras possibilidades que aquilo lhes pareceu um bálsamo de esperanças. Resolveram que marcariam de ir ao tal lugar com Rafael.

E foi assim que Verônica conheceu e passou a frequentar o Centro Seara de Paz, Amor e Luz, aonde começou um tratamento espiritual que estava fazendo já há um mês. Encontrava-se com Alex e Rafael. Ninguém mais sabia. Ai de alguém que soubesse ou pegasse ela no ‘flagra’. O que diriam? O que pensariam? Que vergonha. Que decepção para seus pais… E, por isso, toda semana ao se colocar na fila de abertura esperando o centro abrir não conseguia deixar de sentir e pensar como se estivesse fazendo algo proibido, uma traição, algo às escondidas…

– “O que estou fazendo aqui? Será que alguém vai me ver? A cidade é tão pequena…”

Querido(a) leitor(a)

Como sempre é muito bom estar partilhando com vocês nesta série que tem sido de grande aprendizado e oportunidade para mim, através de contos e casos, algumas histórias que bem podem ser parecidas com a realidade de muitas pessoas.

Vamos refletir em alguns pontos que me parecem relevantes neste conto e, por favor, compartilhem o que pensam a respeito e até mesmo também levantem outros questionamentos. Sua participação e interação torna muito rica essa experiência para todos nós aqui do Círculo.

  • Você já se viu ou se vê em situação parecida com algum dos personagens do conto? Ou conhece alguém?
  • O que você faria no caso de Verônica com relação a Alex?
  • O que você diria para Alex?
  • Como você agiria nessa situação de Verônica sentir-se agoniada de estar vivendo uma vida dupla? Será apenas por ser uma adolescente de 15 anos? Ou não tem nada a ver com a idade?
  • Como podemos vivenciar nossa identidade, nossa própria essência, conciliando com nossa necessidade de pertencimento?
  • Você vive ou já viveu situações em que precisou fazer coisas às escondidas? Eram proibidas ou você não se permitiu falar abertamente, jogar às claras? Falar a verdade?
  • No caso em questão, Verônica, poderia se posicionar com relação a sua nova escolha ou era muito arriscado para ela? Reflita utilizando a empatia – ou seja, vislumbre todo o cenário.
  • O que você pensa a respeito dos dogmas impostos pela religiosidade? Já vivenciou esse tipo de imposição? Ainda vive preso(a) a alguma(s) dessa(s) amarra(s)?
  • Como é possível construir uma espiritualidade livre para além dos dogmas?

Sigamos em frente, “no fluxo e de boas”.
Um grande beijo e até a próxima.
Com carinho,

Marcia Vasconcellos


Leia os artigos anteriores:

1 – Conto: o doce e o cão
2 – Comunicação Multidimensional: possibilidade de cura e libertação

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