Autonomia Espiritual: Borracheiro abençoado

– Eitaaaa. Fiquei sem bateria. Xiiii. Fazer o quê, né?

Rosa havia acordado, como de costume, naquela quinta-feira, às 5h da manhã, repleta de coisas por fazer, agenda lotada. Tinha o hábito de levantar-se cedo há muitos anos. Estudava a Bíblia, meditava, orava, tirava um tempo com Deus e, aí, sim, estava pronta para seus afazeres domésticos e para sua jornada diária, sempre muito bem planejada e organizada.

Rosa estava casada há 25 anos com José Augusto e tinham um filho de 20 anos, Lucas. Seu marido trabalhava como embarcado pela Petrobrás e, desta forma, ausentava-se de casa por um período de 15 dias todo mês. Portanto, ficavam ela e o filho a cada 15 dias sozinhos, porém bastante unidos. Era um troca saudável em que aproveitavam os momentos para boas reflexões, risadas e comunhão.  E quando o pai estava junto, era muito bom. Para todos, inclusive o casal. 

Só que naquela quinta-feira, especificamente, o marido estava ausente. Seu primeiro compromisso era uma consulta médica agendada há dois meses para verificar uma série de exames de rotina, porém que eram importantes. Rosa se preocupava com sua saúde. Era cuidadosa do estilo “toda certinha”. Não poderia esperar que um golpe do destino fosse lhe oferecer tanta oportunidade de aprendizado de uma ‘veizada’ só. 

Na psicologia aprendemos com Freud que existem formações do inconsciente. São alguns subprodutos que nos indicam que determinados acontecimentos em nossas vidas aparentemente casuais, possuem um nexo causal, caso nos proponhamos a investigar. Exemplos corriqueiros são sonhos, chistes, atos falhos, lapsos de linguagem, esquecimentos. 

Você, caro (a) leitor (a), já trocou o nome de alguém, assim, do nada? Sem querer? Como foi? Do que tem se esquecido? Com o que costuma sonhar?

Costuma falar verdades que gostaria de dizer de outra forma através de algum tipo de brincadeira mais irônica, ou de ‘mal gosto’? Ou conhece pessoas que ‘mandam a letra’ e depois dizem que estavam apenas brincando? São algumas reflexões sobre o que Freud nos ensina a respeito dessas formações do inconsciente.

Então, no caso de Rosa, ela ‘sem querer, querendo’, esqueceu a lanterna do carro ligada a noite inteira, o que consumiu sua bateria e quando foi, pontualmente, sair pela manhã para seus compromissos, não conseguiu dar partida no carro. Porém, tal esquecimento foi muito útil para sua vida, como veremos a seguir. 

Numa perspectiva mais rasa, mais superficial, nos domínios da mente física, da própria ciência psicológica (e olhem que sou simplesmente apaixonada por psicologia e trabalho com ela há 22 anos), poderíamos supor que seu inconsciente lhe preparou uma peça, uma armadilha ou uma espécie de sabotagem. Ainda assim, existem mecanismos inconscientes que nos servem para evolução, quando bem geridos e administrados, enfim, quando estão a serviço da conscientização da pessoa em questão. 

Já na perspectiva de que nos dispomos nesta série de Autonomia Espiritual, que, à propósito, está terminando, nosso olhar precisa de um alcance mais amplo e uma visão mais acurada. O que viria a acontecer com Rosa logo a seguir, marcaria a possibilidade de escolhas em que seu livre arbítrio estaria sendo testado, como, na verdade, o de todos nós neste momento de transição planetária, e que lhe daria a chance de subir de nível e aprender com este problema ou permanecer estagnada na mesma posição.

Bem, vamos então analisar suas alternativas.

  • 1ª alternativa – Rosa poderia, como de costume devido a sua natureza e temperamento forte,  personalidade ansiogênica e necessidade de controle, ficar muito nervosa, destemperada e irritada com tudo e com todos, inclusive com ela mesma devido a sua desatenção e descuido ao desligar o carro na noite anterior e não se dar conta da lanterna. Isso causaria mal estar em diversas pessoas a sua volta, liberaria cortisol em seu organismo produzindo toxinas em seu corpo e, muito provavelmente acabaria com o seu dia, estragando, ao menos em parte com o dia de outras tantas pessoas também, incluindo seu filho.
  • 2ª alternativa – Rosa poderia aprender a dar um salto quântico em seu comportamento padronizado e desenvolver novas habilidades a partir de uma situação que lhe escapou do controle, a partir de um esquecimento corriqueiro, mas que pode lhe ser de grande serventia. Afinal, ela vai precisar rever sua agenda para analisar quais são as opções mais racionais e qual o melhor plano de ação a ser executado de maneira prática, objetiva e eficaz que lhe permita tentar resolver o problema de modo a não lhe atrapalhar o dia além do necessário nem causar danos a ela nem a ninguém. Afinal, o carro já está mesmo sem bateria e isto precisa ser resolvido. Pronto. É o que ela tem para esta manhã de quinta-feira.

Refletindo, assim, qual alternativa você escolheria? Que alternativas você encontraria? Pense, por alguns momentos e, caso sinta vontade, compartilhe. 


Voltando a nossa ilustre personagem, vejamos como ela se saiu da situação…

Bem, Rosa ficou em estado de choque, paralisada por algum tempo. Não podia acreditar no que estava acontecendo. “E se…”… “ E se…”… “E se”… Foi bombardeada em sua mente por um fluxo contínuo de pensamentos distorcidos “E se?”. Até que resolveu parar. Disse para si mesma:

– Chega. Basta. Não vou ficar nisso. E se não resolve. Já não foi. Não há mais nada a fazer. Agora é o que será.

Chamou seu filho, Lucas, e entraram na internet a fim de encontrarem um mecânico por perto. Enquanto aguardavam a oficina abrir e virem pegar o carro, repassou sua agenda e fez exercício de respiração. Relaxou um pouco para não ficar tensa e mandou mensagens pelo WhatsApp desmarcando e remarcando compromissos, inclusive avisando ao médico que iria se atrasar, mas pretendia ir à consulta com os exames, assim que resolvesse o problema do carro.

Já na oficina, Rosa se surpreendeu com uma paz que excede qualquer entendimento… “Só pode ser a paz de Deus”, pensou Rosa. Fp. 4:7.

Observou atentamente o trabalho do borracheiro. Cuidadoso, detalhista, e tão útil e necessário. Refletiu a importância deste serviço e de quem o executa para nós. Dependemos de tantas profissões que na pressa do dia a dia não conseguimos observar, damos tão pouco valor a elas. Neste momento, Rosa decidiu então se dirigir ao borracheiro: 

– Olá! Bom dia! – exclamou Rosa. – Eu estava observando seu trabalho e fiquei impressionada ao notar o quanto ele é importante para todos nós. O senhor tem noção da grandeza do que o senhor faz todos os dias?!

– Minha senhora, bom dia. Eu só cuido de pneus. – respondeu o borracheiro de forma modesta.

– Não, absolutamente! – continuou Rosa em tom enfático. – O senhor precisa entender que assim como o leiteiro, o carteiro, o pedreiro, o lanterneiro etc., a sua profissão é uma benção. A sociedade só está acostumada a valorizar profissões renomadas. Mas o que seria de nós se não fossem vocês? Eu mesma, a esta hora da manhã, como iria trabalhar, continuar o meu dia.

– É, vendo desse modo a senhora tem razão. Nunca pensei assim. Obrigado, então. – respondeu o borracheiro pensativo.

Rosa sentiu uma leveza e um bem estar muito grandes depois de ter falado o que pensou. Quantas vezes é tão mais fácil nos calarmos ou dizermos coisas ruins e desagradáveis do que falarmos palavras positivas e abençoadoras? Interessante que Rosa percebeu ainda com essa sua experiência, que deu conta de cumprir praticamente todos os seus compromissos num estado de tranquilidade, relaxamento, sem ansiedade, tendo sido, simultaneamente, abençoada e fonte de benção. 

Notou então que somente no estado de presença, de viver o aqui e agora das situações é que permite realmente superar a ansiedade causada pelas situações inesperadas que escapam ao nosso controle. E com isso percebeu que estava aprendendo finalmente, a deixar as coisas rolarem e aceitar a vida como ela é. Desta forma, vivendo o presente no presente a vida se torna realmente uma benção. E todos que aqui estamos, pode e deve aproveitar para ser canal de benção: abençoado e abençoador.

Querido(a) leitor(a):

  • Você tem dificuldade de viver no presente, de viver o aqui e agora?
  • Que estratégias você pode começar a usar hoje para observar o que tem passado despercebido na sua vida?
  • Você presta atenção nos seus sonhos, esquecimentos, atos falhos? Que tal anotá-los?
  • Você tem sido um canal de benção na vida de alguém?

Sigamos em frente, “no fluxo e de boas”.

Um grande beijo e até a próxima.

Com carinho,
Marcia Vasconcellos


Leia os textos anteriores da série:

1 – Conto: o doce e o cão
2 – Comunicação Multidimensional: possibilidade de cura e libertação
3 – Conto: Às Escondidas
4 – Autonomia Espiritual: Quebra-Cabeças
5 – Curto-Circuito: Eternos buscadores
6 – Conto: Sementes da luz
7 – Cozendo o passado com o olhar no futuro

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