Cozendo o passado com o olhar no futuro

Já pequena, Luana havia sido uma criança solitária, porém alegre. Sua essência era genuína, simples e expansiva. Amava escutar música, dançar solta em seu quarto, criar histórias e brincar com suas bonecas, casinha e faz de conta. Tinha muita imaginação. Não precisava de amiguinhos que não gostavam dela e a mordiam, beliscavam, implicavam na escola e a faziam se sentir, por dentro, inferiorizada e desengonçada.

Uma vez, chegou em casa com uma lapiseira muito bonita. Sua mãe quando viu, logo perguntou de quem era. Luana, ingênua e sinceramente disse que era de uma amiguinha. E sua mãe questionou o que fazia em seu estojo. Ao que Luana respondeu, sem jeito, encabulada e envergonhada que havia pegado, pois tinha gostado muito. A amiguinha era filha do dono de uma das mais famosas grifes de moda do Rio de Janeiro na época. Não ia fazer falta. Por que a mãe tinha que mexer em seu estojo? 

Luana era muito boazinha, não costumava dar trabalho ou fazer bagunça, as tias da escola costumavam elogiar seu comportamento. Mas, certa feita, em uma ocasião específica e inusitada, a mãe, Dona Júlia, quando foi pegar Luana na escola, foi chamada pela professora que lhe informou que a menina, apesar de ser essa criança fácil de lidar e muito querida, fechava a cara quando era, porventura, chamada a atenção. 

Desde cedo, tão pequenina, como pode não gostar de ser chamada a atenção? – disse a tia Nicole. 

– Deve ser um espírito ‘velho’; arrematou a moça da cantina que estava passando e ouviu o comentário.

Realmente, na medida que o tempo passava, Luana se mostrava uma menina singular. Após a separação dos pais, aos sete anos de idade, foi morar sozinha com sua mãe, e pouco tempo depois passaram a frequentar um templo de oração oriental. Nesse local pediu ao ministro que pudesse se tornar membro daquele lugar já aos 11 anos de idade para que ajudasse sua mãe. De alguma forma, conseguia perceber que sua mãe era uma mulher adoecida e fragilizada. Mal saberia Luana que, em breve, os papéis se inverteriam de forma imperativa.

Devido aos problemas enfrentados pela criação e histórico de vida de sua mãe, ela sucumbia psiquicamente com o decurso do tempo. Isto fez com que Luana precisasse interromper seus estudos e convívio social com colegas de sua faixa de idade para que pudesse ajudá-la a superar momentos difíceis aos quais ainda viriam a atravessar juntas nesta caminhada terrena. Deste modo, Luana perdeu dois anos de Ensino Médio, aos quais precisou recuperar fazendo um cursinho supletivo à noite. 

Estafada e sobrecarregada, quem não resistiu desta vez, aos 19 anos, foi a jovem. Acometida por uma forte crise de depressão, na qual nem queria sair da cama, sua mãe se viu tendo que cuidar da filha, ou seja, assumir seu papel e função materna. Procurou ajuda do pai de Luana e em um centro espiritualista. Lá, Luana foi submetida a tratamento espiritual e encontrou um psiquiatra que a tratou e encaminhou para uma psicóloga. Foi quando, então, conheceu aquela que seria sua futura profissão. Jamais poderia imaginar que através de uma situação tão dolorosa fosse descobrir seus dons e talentos. 

A Psicologia era para ela um universo completamente natural. A linguagem abstrata, o parentesco direto com a Filosofia, o universo dos símbolos, os teóricos que estudavam processos psíquicos e da mente inacessíveis e profundos! Quanta riqueza de conteúdo! Quanto mais estudava e conhecia as teorias, técnicas, ferramentas, abordagens, mais encantada ficava. Já no quinto período, começou seu estágio em Psicologia Clínica, sua verdadeira área de atuação e paixão. E no 9º período, faltando ainda um para se formar, entrou na pós-graduação em Psicanálise na mesma faculdade. 

Dois anos depois de formada, começou uma pós-graduação em Psicologia Analítica (sempre considerou Carl G. Jung muito peculiar e interessante). Contudo, logo no ano seguinte ao início desta pós, sua mãe faleceu inesperadamente enquanto dormia de infarto do miocárdio e, sendo assim, Luana não conseguiu dar continuidade. 

Alguns anos depois, fez sua formação em Psicoterapia Cognitivo Comportamental, entendendo que a teoria psicanalítica é, para ela, insuperável a nível de compreensão das forças psíquicas que movem o sujeito individualmente. Entretanto, se dando conta do limite da prática clínica nas necessidades do aqui e agora do homem contemporâneo.

Luana sempre buscou atualizações em sua profissão. Era muito estudiosa, centrada e dedicada. Seu foco era se tornar uma profissional livre e autônoma. Dizia para sua mãe que não queria se casar nem ter filhos. Era uma mulher independente. 

Porém, não foi bem isso que aconteceu… Ela se casou, separou, e de novo, separou… e… Do primeiro relacionamento teve uma linda filha a qual ama de paixão. Sarah é sua bênção, seu presente de Deus: a melhor coisa que poderia ter acontecido em sua vida. Aliás, em muitos momentos posteriormente a Sarah, se perguntou o que faria sem ela e tem plena e absoluta certeza de que não tomaria determinadas decisões se não fosse ela.

– Só quem é mãe sabe! – pensa, Luana. E arremata, mordazmente em seus próprios rápidos pensamentos: 

– Bem, depende da mãe, claro…!.

Sua vida tem sido marcada por altos e baixos, como a de todos em geral, com vitórias, perdas, erros e acertos, percalços no caminho, aprendizados e oportunidades perdidas… Devido ao fato de ser uma buscadora e curiosa nata, passou por muitos lugares e conheceu diversas pessoas. Gosta de interagir e trocar, mas apesar de sociável, é tímida e introspectiva, apreciando bastante momentos de solitude.

Aprende rápido e gosta de passar adiante seu conhecimento. Considera que a fé move o ser humano e ama os animais. Já fez curso de cristais, astrologia, terapia de vidas passadas, flertou com o budismo, gosta de se sentir livre e busca respeitar as individualidades. Daí a paixão inevitável pela Psicologia. Por tentar ajudar quem quer ser ajudado a se reconhecer, a lutar por ser quem é, a saber de sua essência, a redescobrir ou redefinir ou recriar sua história pessoal. 

Luana possui um estilo de vida diferente e não acredita ser fácil se adaptar a ela. Aos 38 anos de idade já estava empolgada em chegar aos 40. Achava que as mulheres de 40 eram o máximo. Bem resolvidas, coisa e tal. Amou quando entrou na casa dos ‘enta’. 

– Quem ‘enta’ não sai…. 

Mas, vieram alguns probleminhas que acompanham essa casa para a mulherada. Esses não são tão favoráveis. Daí, começou a sentir novamente uma velha conhecida sua: a tristeza e vazio existencial. Ao longo de sua vida, depois daquela primeira grande depressão, Luana já teve outras pequenas recaídas. Mas foi na fase dos tão esperados 40 que a depressão voltou com mais intensidade novamente. Seriam os hormônios? Sim e não. 

– Que mania desgramada do ser humano de ficar colocando a culpa nos outros, não é mesmo? Se não é o diabo, a culpa é de Deus, se não é de Deus nem do diabo é do vizinho, ou dos hormônios…. Pensava Luana. 

Mas por que colocar a culpa, afinal? Precisa ter um culpado? O sentir precisa ser validado? 

Para Luana, os 40 têm sido uma fase em que ela está fazendo uma retrospectiva de sua jornada existencial. É como ela tem chamado: “cozendo o passado com o olhar no futuro”. Então, tem até se reposicionado em mais de uma área de sua vida e repensado em outras. E tudo isso tem um custo. Mesmo que não repensasse e nem se reposicionasse, custo já teria. Sempre tem.

Em um desses insights que vem tendo, entre um paciente e outro, Luana pôde observar com grata admiração que sua clínica era marcada quase exclusivamente por pessoas que sofrem de problemas de ansiedade e depressão. Olhando em retrospectiva, ela pôde ver então, as mãos de Deus, do Criador, da Fonte Criadora, de como você quiser chamar, moldando e guiando para que ela fosse devidamente preparada e qualificada “na pele” para atender essa clientela com um nível de compreensão e empatia que somente quem já esteve lá consegue alcançar. 

Porém, isso e outras conexões que Luana foi fazendo durante seu percurso existencial/espiritual num processo de expansão consciencial só foi possível porque ela se permitiu ser moldada e se abriu para processos de transformação pessoal que implicaram em situações antes inimagináveis para sua vida.

Hoje, Luana encontra-se ainda em processo de construção, mas numa fase de vida com mais leveza e paz de espírito. Grata a todos que estão contribuindo para sua trajetória como ser humano.

Querido Leitor,

Grata mais uma vez por sua presença!

  • Como tem sido sua experiência de vida até o momento? Pense um pouco sobre sua trajetória como ser humano.
  • Você consegue, assim como Luana, cozer o passado com o olhar no futuro?
  • Que links e conexões você consegue estabelecer no seu percurso de vida? 

Um grande beijo e até a próxima.
Com carinho,
Marcia Vasconcellos


Leia os textos anteriores da série:

1 – Conto: o doce e o cão
2 – Comunicação Multidimensional: possibilidade de cura e libertação
3 – Conto: Às Escondidas
4 – Autonomia Espiritual: Quebra-Cabeças
5 – Curto-Circuito: Eternos buscadores
6 – Conto: Sementes da luz

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