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Curto-Circuito: Eternos buscadores

Não conseguia compreender sentido e significado em coisas que julgava aparentemente sem nexo, algumas indiscutivelmente levianas demais, outras, ao contrário, aterrorizantes, e ainda aquelas que de tão simples seriam de fácil refutação. 

Como o ser humano, em pleno século XXI, conseguindo tanto desenvolvimento em diversas áreas do conhecimento, parece regredir em termos morais, éticos, virtudes, caráter, não valorizar a natureza, os minerais, as plantas, ser tão degradante com seu semelhante? Simplesmente não respeitar, mas exigir com veemência seus direitos. 

Pedro Henrique, filho único, desde seus 13 anos foi sempre muito questionador. Criado por seus avós, tendo em vista que seus pais faleceram tragicamente em um acidente de carro quando ele ainda era muito pequeno, era considerado na escola aquele aluno provocador, porém no ‘bom’ sentido do termo. Não aceitava qualquer explicação ou resposta para suas dúvidas e questionamentos. Queria sempre mais; possuía sede de conhecimento. 

“Como as pessoas poderiam nascer em famílias tão abastadas e outras em países com tal alto índice de subnutrição?”;

“Que dizer a respeito de vidas tão fúteis e desperdiçadas em contraste com pessoas que nascem em corpos deformados, mas cuja alma apresenta um nível de maturidade e entendimento que auxilia e alcança vidas, transformando-as através de depoimentos e testemunhos de superação maravilhosos, através de livros inspiradores, palestras , ou seja lá como for sua maneira de se expor ao mundo?”

“Qual o propósito em debates desgastantes e tanta perda de tempo, energia e dinheiro em causas que não visam um bem maior e coletivo e não levam a integração ou elevação do ser humano, a uma compreensão maior do todo, a uma dignidade e valor moral mais nobre?”

“Porque determinadas pessoas simplesmente nascem diferentes, com propensões claramente para a maldade? Parece que se identificam com o mal, têm prazer em fazer o outro sentir dor… Como assim? Não possuem empatia? Enquanto outras nascem com espírito tão amoroso, abnegado, generosas, gentis, sensíveis, altruístas… Existem tantas gradações entre esses milhares de seres humanos espalhados pelo globo. Deve haver alguma explicação plausível e coerente.”

Sua mente fervilhava com tantas ideias e seu espírito inquieto se debruçava em diversos estudos e pesquisas. Desde cedo considerava como uma espécie de missão de vida, algo que o impulsionava e encantava, direcionava e dava sentido e significado, conhecimentos que pudessem fundamentar essa busca incessante por respostas que o satisfizesse.

Não raras vezes, seu corpo físico ficava esgotado, exausto e passava dias na cama, sentindo-se exaurido sem ainda assim parar de divagar em pensamentos e sentimentos diversos, confusos, contraditórios, perturbadores até!

O mundo era tão belo, um lugar cuja natureza era tão claramente inspiradora e renovadora de suas energias internas. Precisou aprender espontaneamente a recarregar sua bateria interna, observando os animais, os pássaros, as floradas, as estações… tudo no seu tempo. Quanta sabedoria instintiva natural, não condicionada. Assim como o próprio ato e ritmo de simplesmente respirar. 

Lembrou-se de algumas passagens de Jesus, o Mestre dos Mestres. De como Ele cita a natureza para nos lembrar que devemos observá-la e até mesmo aprender com ela. Não é à toa, afinal.

“Portanto, aprendi com a parábola da figueira: quando, pois, os seus ramos se renovam e suas folhas começam a brotar, sabeis que está próximo o verão”. Mt. 24: 32

E, ainda: “Portanto, vos afirmo: não andeis preocupados com a vossa própria vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as roupas? Contemplai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Não tendes vós muito mais valor que as aves?

“Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar algum tempo à jornada de sua vida? E por que andais preocupados quanto ao que vestir? Observai como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem.

“Eu, contudo, vos asseguro que nem Salomão, em todo esplendor de sua glória, vestiu-se como um deles. Então, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, quanto mais a vós outros homens de pequena fé?

“Portanto, não vos preocupeis, dizendo: Que iremos comer? Que iremos beber? Ou ainda: Com que nos vestiremos? Pois são os pagãos que tratam de obter tudo isso; mas vosso Pai celestial sabe que necessitais de todas essas coisas.

“Buscai, assim, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. 

“Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará suas próprias preocupações. É suficiente o mal que cada dia traz em si mesmo”. Mt. 6: 25-34

Por outro lado, infelizmente, em momentos de crise existencial, o mundo e o ser ‘dito’ humano lhe parecia um lugar sombrio, cruel, de injustiças, perverso, denegrido… Não se sentia, muitas vezes, talvez na maior parte do tempo de sua até então existência de 35 anos, ‘pertencente’ aqui. Era mais como um ‘visitante’ inoportuno… Um esquisitão fora da casinha… pensava demais e as pessoas não gostam disso. Estão acostumadas ou acomodadas a pensar de menos. 

Preferiu levar a vida de um ermitão. Depois que seus avós morreram, pôde se dar ao luxo de viver dos bens deixados pela abastada família. E com sua boa formação, fazia trabalhos avulsos na área de marketing digital, na qual se tornou um expert e lhe dava uma grana extra muito boa. 

Finalmente, se deparou com um conhecimento que lhe abriu um mar de possibilidades e fez conexões. As Neurociências. Através dela, aprendeu, por exemplo, que o cérebro de um psicopata é anatomicamente diferente do cérebro de uma pessoa considerada ‘comum’ ou tida socialmente como ‘normal’. Já anotou para levantamentos posteriores o que seria considerado normal e patológico e do ponto de vista de quem. Pedro era um espírito investigador e bastante complexo. Uma personalidade bastante interessante e peculiar, mas difícil de lidar e conviver.

Enfim, foi descobrindo um universo amplo e novo com o qual se apaixonou perdidamente. Dali em diante, foi ampliando suas áreas de aprendizado. E fez outras pontes e conexões. De repente: 

_ Bingo! Aquele Sigmund Freud (1856-1939), foi realmente um precursor das neurociências. O cara era neurologista! Ele descobriu redes neuronais naquela época! Genial! Mas, gente! Pera lá. Esse homem nasceu no ano anterior em que a obra de Allan Kardec viria começar a ser publicada? Não poderia ser mera coincidência. 

E sua cabeça foi a mil: Quem mais neste século? Que pensadores poderiam estar relacionados à sua procura e às respostas a tantos questionamentos? Viria começar mais uma pesquisa em busca de dados… 

Antes que sua mente entrasse num curto circuito, lembrou-se de Agostinho de Hipona: “Deus sempre abençoa o esforço da busca”.

Querido (a) leitor (a):

Espero que sua mente não colapse. Mas, de vez em quando, um curto-circuito ‘do bem’, faz-se necessário. É uma espécie de faxina mental. Um chacoalhão, sabe como?

Vamos experimentar?

  • Quais questionamentos você tem passado atualmente?
  • Quais têm sido suas grandes perguntas existenciais? 
  • O que você tem buscado? Aonde tem procurado as respostas?
  • Tem com quem compartilhar, trocar?
  • Se tivesse que escolher, no aqui e agora, algo que considere muito importante a ser resolvido na sua vida, seria o que? Em qual área?
  • O que pode ou deve ser feito a respeito?
  • O que diria a um (a) amigo (a) que estivesse em seu lugar?
  • No caso da escolha de Pedro Henrique em permanecer como um ermitão, o quanto você considera que ele possa estar ganhando ou perdendo em termos de abdicar da oportunidade que os desafios das trocas com parceiros e outras pessoas nos trazem em termos de evolução espiritual? Você considera uma opção razoável, adequada, uma forma de evitação e fuga de problemas, enfim… qual a sua percepção desta situação?
  • Quais aspectos no conto você se identifica e por que?

Gratidão por estar aqui mais uma vez!
Um grande beijo e até a próxima
Com carinho,
Marcia Vasconcellos


Leia os textos anteriores da série:

1 – Conto: o doce e o cão
2 – Comunicação Multidimensional: possibilidade de cura e libertação
3 – Conto: Às Escondidas
4 – Autonomia Espiritual: Quebra-Cabeças

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